Igor Gadelha

Vitória nas urnas de Lula abre discussão para sucessão do petista em 2030, e corre o risco de ver disputa virar tragédia dentro do PT

Gustavo Zucchi

26/10/2026 09:00

Luis Nova/Especial Metrópoles @LuisGustavoNova

Com a vitória nas urnas em 2026, o presidente Lula ganhou automaticamente um novo desafio. Sem possibilidade de reeleição em 2030, o petista corre risco de ver seu partido, o PT, envolvido em um drama shakespeariano na disputa por sua sucessão daqui a quatro anos.

Dois dos personagens trágicos do bardo inglês podem ser encarnados por Lula, a depender de suas escolhas futuras e passadas. Com isso, o presidente reeleito poderá jogar o partido, fundado por ele próprio há 46 anos, em uma espiral de disputas internas fratricidas.

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Presidente Lula

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Presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
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Presidente Lula
Luis Nova/Especial Metrópoles @LuisGustavoNova
Na tragédia petista, dois caminhos se desenham. Caso erre nas doses, Lula pode acabar como Lear ou Macbeth. E, como o leitor talvez saiba, nenhuma das duas peças termina de forma feliz.
O primeiro caminho é o de quem não consegue preparar a própria sucessão. Em Rei Lear, o monarca busca a bajulação das filhas, acaba traído, enlouquece e vê seu reino mergulhar em uma guerra civil.
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Na peça, Lear decide dividir o reino entre as três filhas. Cordélia, a mais nova, se recusa a bajular o pai como fazem as irmãs mais velhas e acaba banida.
Mais tarde, o monarca percebe que aquelas que mais o adulavam não eram as mais leais. A tragédia termina com Lear vendo Cordélia, a única que foi realmente fiel ao pai, morrer em seus braços.
Lula corre um risco semelhante. Depois de décadas como principal liderança da esquerda brasileira, o presidente terá de escolher quem poderá herdar seu capital político. E precisará aceitar que esse sucessor tenha brilho próprio.
O problema é que Lula chega a esse momento sem ter consolidado um herdeiro político incontestável e cercado de bajuladores que nem sempre lhe apontaram os próprios erros. Erros que poderiam, inclusive, ter custado a reeleição do petista contra Flávio Bolsonaro (PL).
Se não conseguir organizar a transição, o PT poderá se ver diante de uma disputa interna pelo espólio lulista. E o presidente, que durante décadas foi o principal árbitro das divergências do partido, corre o risco de acabar escanteado justamente quando sua capacidade de manter a legenda unida for mais necessária.
O segundo caminho seria o de Macbeth. Na peça, Shakespeare retrata um homem que ouve uma profecia de bruxas segundo a qual será rei. Dominado pela ambição, ele assassina o monarca e passa a viver atormentado pela possibilidade de perder o poder.
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Retrato do escritor e dramaturgo William Shakespeare
San Diego Shakespeare Society/Reprodução
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Tese sugere que William Shakespeare era na verdade um mulher negra de origem judaica
San Diego Shakespeare Society/Reprodução
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Livro antigo com imagem de Shakespeare -- Metrópoles
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A profecia, porém, também prevê que os descendentes de seu amigo Banquo ocuparão o trono no futuro. Para tentar impedir que isso aconteça, Macbeth mergulha em uma onda de assassinatos: manda matar Banquo, tenta eliminar seu filho, Fleance, e ordena o massacre da família de Macduff. Na tentativa de preservar a coroa, transforma o reino em um cenário de terror e prepara a própria ruína.
A analogia com Lula não está na violência, mas na tentação de impedir que o poder passe para outras mãos. O desejo de preservar seu legado pode se confundir com a necessidade de continuar no comando.
Ao não preparar um sucessor, Lula corre o risco de assistir à fragmentação do PT. Mas, ao tentar controlar excessivamente a própria sucessão, também pode dificultar o surgimento de uma liderança capaz de manter o partido unido depois dele.
O próprio petista não teve habilidade, por exemplo, para manter proximidade de Dilma Rousseff. Nos mandatos da petista, houve um afastamento entre ele e a mandatária, o que acabou contribuindo para o impeachment da petista.
É esse o dilema. Se deixar a sucessão em aberto, poderá assistir a uma disputa pelo espólio político que construiu ao longo de décadas. Se tentar decidir sozinho quem deverá ocupar seu lugar, poderá sufocar justamente as lideranças que teriam condições de renovar o partido.
Lula poderá acabar como Lear, vítima da disputa pelo reino que não soube deixar organizado, ou como Macbeth, prisioneiro de uma ambição que não lhe permite abrir mão do trono.
A questão é se, depois de tantos anos no poder, Lula conseguirá preparar o próprio fim político sem transformar o partido que terá mais quatro anos no Planalto em uma tragédia.

