O Dia dos Mil Mortos é o nome dado ao evento histórico ocorrido em 10 de dezembro de 1878, quando a capital da Província do Ceará registrou 1.004 mortes causadas pela varíola, doença que se espalhou em meio a outra tragédia, a seca dos três setes, a qual agravou as condições sanitárias da cidade e facilitou a propagação da epidemia entre moradores da cidade e flagelados, oriundos dos sertões da província que foi gravemente afetada pela seca. As ossadas das vítimas foram encontradas apenas em janeiro de 1994, quando trabalhadores do Serviço de Saneamento de Fortaleza (Sanear) descobriram uma vala comum com inúmeros restos mortais no bairro Jacarecanga, local posteriormente confirmado como um dos cemitérios onde as vítimas foram sepultadas.
Antecedentes
A grande seca do Nordeste foi um período de severa estiagem ocorrido na região, que afetou principalmente a Província do Ceará, com três longos anos sem chuvas, perda das colheitas, morte de rebanhos e êxodo das famílias do interior para a capital. Para tentar amenizar a situação, o governo do Império do Brasil enviou engenheiros que determinaram a perfuração de poços e a execução de outras obras de combate à seca. A população de Fortaleza era de 42.458 habitantes em 1872, cinco anos antes do início da grande seca.
História
Epidemia de varíola na Província do Ceará A varíola não atingiu apenas a Província do Ceará, tendo se iniciado na Província da Paraíba e se espalhado pelas províncias vizinhas, como a do Rio Grande do Norte, onde atingiu com mais força a cidade de Mossoró, adentrando o território cearense pelo litoral, mais precisamente pela cidade de Aracati. Ao se espalhar pelo Ceará e alcançar Fortaleza, sua capital, cerca de 100 mil sertanejos já se encontravam alojados em abarracamentos conhecidos como “currais do governo”, que possuíam estrutura precária, o que facilitou ainda mais a disseminação da doença. Segundo o farmacêutico Rodolpho Teóphilo, à época, apenas dez desses abarracamentos abrigavam mais de 100 mil pessoas ao redor de Fortaleza. A doença chegou à capital cearense em setembro de 1878 e se espalhou rapidamente entre os flagelados instalados nos abarracamentos e os próprios moradores da cidade. No final daquele mês, em 30 de setembro, já havia mais de 300 infectados, o que levou o governo local a agir com rapidez para tentar conter o avanço da epidemia. No entanto, os esforços se mostraram insuficientes: em outubro, o número de doentes ultrapassava 5 mil, com 592 mortes registradas apenas naquele mês, evidenciando que a varíola não daria trégua e que seria impossível restabelecer adequadamente o serviço hospitalar da cidade.
Dia dos Mil Mortos No início de dezembro, no dia 10, o Cemitério de Lagoa Funda recebeu 1.004 cadáveres. Sessenta e quatro retirantes haviam sido contratados como coveiros, mas não conseguiram enterrar todos os corpos naquele mesmo dia. Com os cadáveres acumulando-se em grandes montes, o trabalho foi encerrado no final do dia ainda restando 238 corpos por sepultar. Na manhã seguinte, muitos desses corpos haviam sido atacados por cães e urubus, estes últimos formavam uma grande nuvem negra sobre o cemitério e disputavam com os cães os restos mortais das vítimas. O desespero era geral, pois a doença não fazia distinção de classe, atingindo desde os mais pobres e flagelados as mais altas elites do Ceará à época, tal como Marieta Raja Gabaglia, então primeira-dama, esposa de José Júlio de Albuquerque Barros, presidente da Província do Ceará.
Diminuição dos casos Os números de infectados e mortos só começaram a diminuir no ano seguinte, 1879, embora ainda tenham sido registrados 2.134 óbitos em Fortaleza apenas no mês de janeiro. Nos dois meses seguintes, os números caíram significativamente, com 176 mortes em fevereiro e 107 em março.
Referências

